03/09/2017

Há liberdades que desconheço



A história, mais do que as fofocas prestigiadas que nos são passadas com a tarja de conhecimento, será sempre uma fonte de dados indispensável para pensar no futuro. Ela própria e a realidade presente são as maiores responsáveis pelo alicerce da nossa consciência política neste tempo em que, antes de analisar os problemas, as pessoas dizem que a culpa é de um partido, de um grupo ou de uma ideologia. Nada mais lúcido do que o real para contrariar absurdos desse gênero.

Estranho e desconheço quem se diga em favor da liberdade, mas que só disposto a defender a do poder econômico. Não valorizo a liberdade onde há puro conservadorismo como pauta e total descompromisso com o combate à marginalização. Nego legitimidade onde encrustada a estupidez de querer a guerra e o autoritarismo como instrumento de uma paz imaginária. Há liberdades que desconheço.

Não existe a tal liberdade como fim quando o que se quer é apenas condicionar e submeter a humanidade à subserviência do mercado e à dominação dos poderosos. Não vejo liberdade em querer que a vida das pessoas esteja em função do emprego e dos produtos monetariamente avaliados. Ninguém deveria, no mundo, ser obrigado a se sujeitar a nada que efetivamente não quisesse, especialmente por estar sendo explorado e, pior, por não lhe restarem outras alternativas para fins de subsistência. No fundo, o capitalismo só será liberdade quando permitir isso. E acho difícil sê-lo.

A reforma trabalhista, recentemente aprovada, encurta as liberdades, mais foi amplamente apoiada por quem faz juras de amor à liberdade de oprimir, de ser escravo e de se sujeitar aos desígnios do capital. Não identifico essa liberdade! Nesse contexto, a frase de Henri Dominique Lacordaire, dita no início do século XIX, cairia muito bem: "Entre os fortes e fracos, entre ricos e pobres, entre senhor e servo é a liberdade que oprime e a lei que liberta". E a lei foi atacada, continua sendo, pois a liberdade que interessa, para alguns, é a de moer sonhos e dignidade de quem efetivamente produz: o trabalhador.

A regra de ouro ou ética da reciprocidade, como prefiram, por si só, destrói a ilusão de que liberdade abrange o direito de negar proteção aos desvalidos e de permitir, a pretexto de liberar geral, o sofrimento alheio. Poucos quereriam uma liberdade assim diante de si. Por isso, no início desse texto, eu dizia que a realidade e a história são determinantes nesses casos. É por isso que há liberdades que desconheço. No meu vocabulário, liberdade não é sinônimo de libertinagem ou de devassidão. Por isso.